O efeito BTS: do superávit bilionário na Coreia à invasão K-Pop em Stanford

Não é novidade para ninguém que o BTS movimenta multidões, mas o que aconteceu em março deste ano foi um fenômeno que cruzou a fronteira do entretenimento e virou caso de estudo econômico. Pela primeira vez em mais de 11 anos, a Coreia do Sul registrou um superávit na sua conta de viagens, e o motivo tem nome, sobrenome e sete integrantes. O retorno do grupo com o show “BTS Comeback Live: Arirang”, na Praça Gwanghwamun, em Seul, não foi apenas um evento cultural; foi o motor que empurrou o balanço financeiro do país para o azul.

Os dados preliminares do Banco da Coreia mostram um saldo positivo de 140 milhões de dólares em março. Pode parecer apenas um número, mas é a primeira vez que isso acontece desde novembro de 2014. Para se ter uma ideia da magnitude, a receita turística deu um salto de mais de 68% em relação ao mês anterior, chegando a 2,7 bilhões de dólares — o patamar mais alto desde que o banco central começou a compilar esses dados, lá em 1980. O que vimos foi uma enxurrada de mais de 2 milhões de visitantes estrangeiros entrando no país em um único mês, algo inédito na história coreana.

É claro que a primavera ajuda, já que é a alta temporada no país, mas a gravidade exercida pelo comeback do BTS em Gwanghwamun foi o diferencial. Fãs do mundo inteiro desembarcaram em Seul após um hiato de quatro anos do grupo, gastando pesado em hospedagem, compras e transporte. Kim Young-hwan, do departamento de estatísticas do Banco da Coreia, foi categórico ao dizer que esse aumento não parece ser algo passageiro. Além do “fator Army”, a desvalorização do won coreano, que chegou a bater 1.470 por dólar (o nível mais baixo desde a crise de 2008), acabou transformando a Coreia em um destino muito mais acessível para quem vem de fora, enquanto os próprios coreanos pisaram no freio nas viagens internacionais devido ao custo elevado.

Essa mesma energia que recuperou a economia coreana agora atravessa o oceano e desembarca na Bay Area. Depois de anos focados em projetos solo e no serviço militar obrigatório, RM, Jin, SUGA, j-hope, Jimin, V e Jung Kook estão finalmente reunidos para a turnê mundial “Arirang”. O Stanford Stadium será o epicentro desse terremoto nos dias 16, 17 e 19 de maio, e o clima na região já é de feriado não oficial. Para quem vive na Califórnia ou está viajando apenas para os shows, a movimentação começa muito antes dos portões se abrirem.

A comunidade K-Pop da Costa Oeste, que é imensa e extremamente engajada, organizou uma logística de recepção que lembra os grandes festivais. Estão previstos diversos “cup sleeve events”, aquelas famosas trocas de brindes e encontros em cafeterias, além de festas temáticas espalhadas por toda a área. Se você está chegando agora e não conhece a região, o esquema é se garantir no transporte público — o BART e o Caltrain quebram um galho enorme, e você resolve tudo com o Clipper Card ou até pelo Apple/Google Pay.

Na sexta-feira que antecede o primeiro show, o aquecimento começa cedo. No East Bay, a parada obrigatória é a K-Pop Nation, em Oakland, que é praticamente um templo para quem quer renovar o estoque de merch oficial e álbuns. E como ninguém vive só de música, o pós-compras pede uma comida coreana de verdade para entrar no clima. O Pyeong Chang Tofu House e o Gangnam Jajang são os pontos de encontro favoritos para quem busca aquele “comfort food” coreano antes da maratona de gritos e coreografias no estádio. No fim das contas, seja em Seul ou em Stanford, o impacto do BTS é o mesmo: eles não apenas ocupam o palco, eles transformam a geografia e a economia por onde passam.