SEPULTURAMachine Messiah
(Nuclear Blast – 2017)

Por Vinicius Castro

O Sepultura do memorável show na Praça Charles Miller não existe mais. Ficou lá, preso naquela energia de um dia inesquecível, mas, já diria o poeta, o tempo passa, o tempo voa. O Sepultura que deu um salto superlativo de evolução saindo do Bestial Devastation e Morbid Visions para o Schizophrenia não existe mais. Ficou lá, registrado em emoções que eu nem sei descrever tamanha a surpresa que foi abrir e ouvir aquele disco. Vinil de capa dupla! Coisa rara em prensagens nacionais da época. Que disco! O Sepultura e o puro thrash que conquistou o mundo com Beneath the Remains e reforçou seu poderio com Arise, também não existe mais. Nem o Sepultura daquele show poderoso no Olympia no lançamento do Chaos AD. Outro dia difícil de nomear algumas emoções. Nenhum desses existe mais e sabe de uma coisa? Ainda bem.

É complicado para o fã brasileiro que era adolescente no início dos anos 90 aceitar o fim de algo que representou durante muito tempo a vitória de um nicho musical hostilmente descredenciado. Para nós, o Sepultura nunca foi só uma banda. Sempre foi o que nós éramos e o que nós almejávamos ser dentro de um estilo que responde pela fidelidade de seus seguidores.

Veja bem. Em um país de inflação estratosférica no fim dos 80 e de um presidente que roubou dinheiro do povo, diz aí pra mim, em quem nós, apaixonados por metal, poderíamos confiar? Já adiantamos, naquele tempo o metal era marginal. Usar preto era uma afronta, um ataque, uma posição política. Não se ouvia panelas. Ouvia-se metal. Em tempos assim, os discos custavam caro e os sonhos se equiparavam a eles. Metal era coisa de vagabundo. Perguntamos novamente: em quem nós, apaixonados por metal, poderíamos confiar? No Sepultura!

Poucas coisas são tão passionais e possessivas como ver uma banda nascer e acompanhar toda a sua trajetória evolutiva. Dentro disso, nos sentimos no direito de afrontar e bradar palavras de ordem a favor ou contra a banda que por direito decidido por nós mesmos, é nossa. O Sepultura é coisa nossa!

Em quase 20 anos de vida ao lado do Sepultura, Derrick Green já realizou mais coisas com o Sepultura do que Max Cavalera. Mas nós, brasileiros, apegados, ciumentos, latinos, que falamos com as mãos, direcionamos nossa angústia em direção a uma banda que simplesmente decidiu seguir seguir com a vida. Não decretar um fim responde também a um amor pela música que te move. Livre-se de qualquer julgamento. Na isenção dos fatos, Andreas e Paulo seguiram com o que mais gostam de fazer: tocar. E isso merece respeito, mesmo que não agrade nosso sangue caliente. Mas para nós, latinos fervorosos e passionais “o Sepultura acabou em 96!!! Foda-se!!!!”. Só que entre quatro paredes, amigos e amigas, a história é outra e a gente nunca vai saber o tamanho da vericidade dos fatos.

O Sepultura sempre foi isso. Desafiador da conformidade. Quando isso nos agradava, era incrível. Quando não, “que porcaria sem tamanho”. Mas eles já começaram assim. Criavam seus próprios cintos de bala usando pilhas, gravaram seu primeiro EP na raça, mudaram juntos para São Paulo em busca de mais visibilidade. Quer mais do it yourself que isso? Mas a gente ainda ficava ali, gritando por uma reunião. “Sepultura sem Max e Iggor não é Sepultura”. Vários e vários debates, justificativas e verdades. O mundo polarizado também se viu dividido entre os Cavalera de um lado e Andreas e Paulo de outro. Quem ganhou? Ninguém. Mas quem perdeu a gente bem sabe.

Derrick Green sempre teve que provar algo dia a dia. Seja musical ou pessoalmente, Derrick sempre teve que justificar sua entrada em uma banda que representava um país, um sonho, uma multidão. Ele? Negro, gringo, com vocal potente, sem o groove brazuca e falando inglês corretíssimo. A gente? “volta, Max, porra!”.

A substituição de Max em 98 não foi bem aceita por fãs. Nem pela imprensa e gravadora. Segundo relatos, foram sentidos até posturas racistas em relação à sua escolha. Nós latinos? Gritávamos: “porra, por que não escolheu o Chuck Billy (Testament), puta vocal foda”. Derrick foi forte. Aceitou o desafio e segurou a onda por essas quase duas décadas. E na boa, não deve ter sido fácil e o Derrick de Machine Messiah é resultado de toda essa trajetória vocalizada em termos agressivos, fortes, melódicos, gritados e cantados.

Chegando aos tempos atuais, quando a banda divulgou a capa do então novo álbum, “que merda é essa?!!?!?”. Tudo bem, pode não ser a coisa mais linda do mundo, mas a nossa pré-disposição em rechaçar antes de entender é incrível. “É o Sepultura porra! É a banda que quase implodiu o Palace no show de lançamento do Arise!”. Mas lembrem-se do que falamos há pouco. Exatamente por ser o Sepultura (porra!), ali mora uma afronta, uma fuga dos padrões, uma vontade de alcançar o próximo step sem dar satisfação a ninguém, uma vontade de se desafiar. E no meio desse desafio, podem surgir um monte de coisas que a gente não gosta, claro. É o preço que se paga. E por mais que a banda tenha se tornado refém do próprio batuque, é uma escolha deles e ponto.

Ao ouvir o “Phantom Self”, primeiro single desse novo álbum, os efeitos/teclados meio indianos, meio world music, não desceram nada bem. Mas a gente ainda estava sob o efeito do pré julgamento alimentado por uma carência em ver de novo AQUELA banda do Dama Xoc de tantos shows memoráveis. Mas o Sepultura deixou de fazer grandes shows? Não. Nós deixamos de ir vê-los.

A disposição inicial em oferecer algumas horas para ouvir e entender Machine Messiah, foi a mesma desde Against. Nenhuma. Mas ouvimos. Como sempre fizemos, mesmo que isso não se repetisse mais. Porque o Sepultura é parte do brasileiro. Por isso a gente sofre, xinga, sorri e comemora. A intimidade é um troço doido e que pode nos tornar o pior dos egoístas. Mas sempre há tempo. O mesmo tempo que revelou que Machine Messiah é um grande disco do Sepultura que segue em frente e não do Sepultura que muitos ainda sonham em ver.

Logo de cara, os vocais limpos, dobras de guitarra e uma intro com dedilhados apresentam para nós a faixa título. Particularmente, é uma das mais legais e surpreendente. Uma música lenta, melódica e cantada. Me lembrou a surpresa de ouvir pela primeira vez “Evolved as One”, do Napalm Death. Assim, logo de cara, no espanto. Você tá lá esperando uma coisa e vem outra. Que música!

“I am the Enemy” é hardcore/metalcore moderno, tem refrão com uma tentativa de blast beat em um tempo mais, digamos, quebrado. “Iceberg Dances” é quase prog. Vem Deep Purpple na lembrança e o Andreas deve gostar muito disso. Nitidamente uma música de guitarra. E aí você está prestes a se deparar com aquilo que se não fosse assinado por eles, seria pelo Mastodon: “Sworn Oath”.

Tem pra todos os gostos. “Silent Violence”, a incrível “Cyber God” e “Vandals Nest” com suas pitadas de VoiVod e um refrão que, se cantado pelo Joe Duplantier, do Gojira, muitos estariam elogiando com textão de descobridor dos sete mares no “feice”. Lembra? É Sepultura, porra!

A melhor coisa que se pode fazer para conhecer um disco é ouvi-lo. Não há como cortar esse caminho então faça isso. Despidos de qualquer pré-conceito que possa atrapalhar o trajeto.

Machine Messiah é a chance de deixarmos de ser juízes daquilo que não se mede. Amor não se confunde com pré-julgamento. E confessamos aqui, é uma delícia avançar nesse sentido. Da nossa parte, Machine Messiah derrubou qualquer má vontade em relação a banda. Não a toa vem sendo considerado em muitos veículos como o melhor disco da era Derrick Green. E mais, talvez a gente tenha gostado por finalmente estar enxergando o Sepultura como um grupo e não como a banda sem Max e Iggor.

Até agora não sabemos dizer o que nos fez nunca ouvir mais de uma vez um disco lançado pelo Sepultura durante todos esses anos. E não foi má vontade. Pelo contrário. A gente queria. Mas hoje, sabemos o que nos fez ouvir, gostar, ouvir de novo e de novo e de novo um disco inteiro do Sepultura lançado sem o Max e Iggor. A razão atende pelo nome de Sepultura. O nosso Sepultura. Sepultura do Brasil. O Sepultura, porra!

Sepultura

Sobre o Autor

Jornalista, guitarrista do Huey e apaixonado por música desde sempre.

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