Por Daniel Motta (especial para o Metal Heavy)

 

Tenho uma certa fixação por rolês metal que tenham uma inclinação para o bizarro. Se eles tiverem alguma chance de dar errado, melhor ainda. Como por exemplo a vez em que fui num show do Skid Row sem o Sebastian Bach. Como isso não bastasse, meu amigo arrumou briga com o segurança do lugar e terminei a noite no hospital com ele.

Quando eu li sobre a Palestra “Vida e Obra de King Diamond” imediatamente soube que seria uma grande noite. Conversando com os caras que organizaram o evento, fui informado de que essa era a primeira vez que um evento sobre a vida de Mestre King acontecia em Medellín. Eu não teria ficado surpreso se eles tivessem dito que era a primeira vez no mundo.

Vivo em Medellín desde janeiro. Vim pra cá para trabalhar e resolvi fazer esse projeto chamado Los Metaleros de Medellín, que é um registro fotográfico da cena metal local. A palestra seria perfeita pra produzir algum material pro site.

O evento aconteceu num buteco chamado Villamil. É um ponto fixo dos metalero aqui. Já fiquei meio brother dos caras por causa das fotos, então eu chego lá e já sabem meu nome. Que honra! Daí que pedi pro dono do bar me apresentar pro PALESTRANTE. Queria conhecer o cara, explicar meu projeto e perguntar se tudo bem eu fazer um retrato dele e registrar essa relevante palestra também. Ele ficou felizão. Me deu um puta abraço e pagou uma cerveja no ato.

Descolei um canto ali pra fazer esse retrato e ele ficou um pouco nervoso. Não sei o que passou em sua cabeça mas ele começou a me evitar, como se fosse uma estrela do rock. Já estive em entrevistas e até viajei a trabalho com bandas grandes e conhecidas mas agora Alírio, o Palestrante, estava me evitando. Tinha esquecido de mencionar que ele se chama Alírio.

Bem, o chamei duas vezes e finalmente ele cedeu. Fiz as fotos e fui para um canto esperar enquanto a palestra não começava. Conheça Alírio:

Alirio. Foto: Daniel Motta (Los Metaleros de Medelin)

Se você me perguntar, eu te diria que ele começou a palestra de um jeito meio agressivo. “Olha, quem não quiser ouvir, por favor fique do lado de fora pra não atrapalhar quem está interessado. A palestra vai durar 2 horas.” Quer dizer: não tem nem 20 pessoas no bar e o cara ainda quer expulsar. Ele mandou esse rojão na galera e fez uma pausa dramática.

Na volta da pausa dramática, o alívio cômico: “Respeitem, afinal de contas isso aqui é uma escola”. hahaha – risadas gerais.

Eu não estava preparado pro que viria em seguida. Alírio empunhou o microfone com propriedade e anunciou: “Temos aqui hoje um convidado muito especial direto do Brasil. Vou chamá-lo aqui na frente pra contar pra vocês sobre esse projeto muito legal que ele tá fazendo”.

CA-RA-LHO. Não dava pra escapar.

Acho que não ficou muito claro se ele entendeu que eu moro em Medellín. Depois que fui convocado, fiquei com a impressão de que ele pensou que vim do Brasil apenas para registrar esse glorioso evento. Eu estava do outro lado do salão então tive que atravessar a porra toda, passei na frente do telão ficando temporariamente cego pela luz do projetor e, assim que peguei o microfone, fui advertido: Você tem 2 minutos!

Hahaha. Porra, eu dei uma risada alta e disse que precisaria só de 30 segundos. Suando frio, expliquei do que se tratava o meu projeto. Não fixei o olhar em ninguém – um olho a olho ali seria desconfortável demais. Por sorte vi algumas pessoas acenando em consentimento, então minha cabeça me disse que estavam curtindo a ideia do projeto.

Devolvi o microfone pra Alírio, o Palestrante, e fui fazer uma foto da galera. Todo mundo se amontoou na minha frente enquanto eu subi num banquinho que quebraria estivesse eu 1 kilo mais gordo.

Foto: Daniel Motta (Los Metaleros de Medelin)

O setup era esse: Um telão na parede e a galera sentada em cadeiras de plástico logo na frente. Dessa forma, o único lugar possível para que Julio, o outro palestrante, pudesse trabalhar era atrás do balcão junto com o barman que estava ali, na humildade fazendo seu trabalho e tinha que dividir seu apertado workstation.

A sensação foi que ele estava lendo uma página da Wikipedia sobre o King Diamond enquanto dava um toque pessoal para parecer que tinha tudo de cabeça. De fato ele tinha tudo de cabeça, mas o tom era monocórdico. Era meio assim: Kim Bendix Petersen (nome real do King Diamond – metaleiro adora isso de saber o nome real) nasceu na Dinamerca em…. (segue falando da família, educação) e sua primeira banda foi formada em 1976.

Daí ele metia um vídeo tosco do Youtube que na verdade nem é um vídeo, sabe? É só um áudio com uma imagem do King Diamond em 1976. E foi assim, nessa pegada até 2017.

Teve fofoca também. Ele contou que King acabou de virar papai pela primeira vez! “E olha que ele tem 61 anos, hein?”, emendou.

Eu já tinha entendido que Alírio é um produtor cultural na cidade. Me deu um cartão, contou que tem uma empresa e vive de organizar eventos como esse. Mas eu ainda não tinha sacado o que Julio faz da vida. Ainda não saquei, na verdade. Optei por pensar que ele é um Connoiseur de King Diamond. Imagino que falar em bares sobre o maior cantor da Dinamarca não seja sua principal fonte de renda. Esse é o Júlio.

Julio, connosseur da palestra sobre o King Diamond. Foto: Daniel Motta (Los Metaleros de Medelin)

Contei que tinha brindes também? Um deles era uma cartola igual aquela que Mestre King usa em seus shows, só que de plástico. O critério para distribuição desse regalo é até agora mantido em segredo na cabeça de Alírio. Passou distribuindo para uns e não para outros. Eu mesmo não ganhei.

Outro brinde era um DVD pirata com uma capa de xerox colorida. Pra receber esse, você tinha que responder a uma pergunta aleatória feita para a plateia durante a conversa. Se a pergunta tivesse sido “Alguém aqui quer morrer agora?” eu teria levantado o braço na hora.

Mas não, a pergunta foi: “Em quem King Diamond se inspirou pra criar sua maquiagem?” Levantei a mão mesmo assim. ALICE COOPER, gritei.

Vitorioso, levantei pra buscar meu brinde para desgosto de alguns presentes. Escutei até “mas esse cara não é colombiano, pô!”. Mais alguns minutos e outra pergunta para o público. O que posso te dizer é que depois dessa pergunta eu ganhei o chapéu de plástico. Acertei de novo. Esqueci o chapéu no táxi na volta pra casa? Sim.

Na terceira vez em que levantei a mão e dei a resposta correta, Alírio me disse: “Ok, pode responder mas não vai ganhar nada”. Provavelmente porque eles só tinham dois sortimentos de presentes e eu já tinha os dois.

A essa altura, eu já estava com 3 cervejas na cuca, tinha vencido 3 quizes (100% de aproveitamento) e fiz todas fotos que queria. Decidi que tinha conseguido mais do que tinha me proposto inicialmente e considerei a noite encerrada. Vou pra casa.

Encontrei um casal de amigos e fiquei conversando com eles. Na parte de fora, claro. Deus me livre atrapalhar a palestra! Acho que fiquei uma hora com eles e então a menina começa a rir. O namorado pergunta porque ela está rindo e ela fala baixinho pra ele, meio em segredo.

O cara responde semi-indignado. “Não pô, não é assim.” Não resisti e perguntei o que foi e ela disse: “Não é engraçado que a gente está aqui conversando há uma hora e aquele cara ainda está lá dentro falando de King Diamond?”.

Sobre o Autor

Jornalista, guitarrista do Huey e apaixonado por música desde sempre.

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