A notícia da morte de Martin Eric Ain deixou um pouco mais triste o dia 21 de outubro. O tipo de acontecimento que você mal espera, mas hora ou outra, vai acometer grandes heróis. Desses que a gente mal se dá conta que um dia morrerão.

Um ataque cardíaco colocou fim à vida de um dos grandes e trouxe a reflexão para algo que nunca estaremos preparado.

A confirmação da perda faz com que a gente pare e reflita sobre a vida e a obra de Martin. Um nome de grande importância na espinha dorsal da música extrema e no modo como ela exerce um papel decisivo na minha, na sua e na vida de muita gente.

Martin ajudou a criar duas das bandas mais influentes da música: o Hellhammer e o Celtic Frost. A primeira teve vida curta e influência larga. Dez entre dez bandas que vieram depois deles escolheram o Hellhammer como influência direta. O Celtic Frost durou mais tempo. Foi, voltou, passou por várias fases e foi igualmente relevante.

Martin foi uma das peças seminais na edificação do death e black metal. Deu vida a alguns do maiores clássicos que esse mundo já viu: “Return to the Eve”, “Into the Crypts of Rays”, “The Usurper”, “Circle of the Tyrants”, “The Heart Beneath”, “Inner Sanctum”, “Progeny”, “A Dying God Coming into Human Flesh” e tantas outras. Isso sem falar em todas as músicas do Hellhammer. Sim, todas!

Mas a primeira vez que eu ouvi algo gravado por Martin foi no fim dos anos 80, em uma loja chamada André Discos. Loja de bairro, mas que pra sorte da molecada, o dono era fã de metal, então tudo ali girava em torno desse universo.

Depois da volta da escola, era pra André Discos que eu ia. Passava a tarde toda lá ouvindo discos, vendo e ouvindo os caras da loja falarem sobre as mais variadas bandas que carregavam a bandeira do heavy metal.

Confesso que talvez esse seja um caso raro onde a música de uma banda que mais me marcou foi uma introdução: “Innocence of Wrath”, faixa que abre o disco To Mega Therion e que me tirou do eixo. Um enunciado perfeito para um disco perfeito. Fiquei vidrado naquilo, queria mais e mais daquela sensação quase física que o disco causou naquele momento.

Vendo minha reação pré-adolescente deslumbrada, um dos caras disse que gravaria uma fita cassete com o To Mega Therion e pediu para que eu fosse buscar no dia seguinte. Votei pra casa e só pensava na tarde do dia seguinte. Ansiedade monstra.

Finalmente chegou o dia! Fui até a André Discos e a fitinha estava lá, pronta, e pra minha sorte, com um bônus, o EP Emperor’s Return.

Foto: Martin Kyburz

Desde então a música de Martin Eric Ain esteve sempre presente. Na vitrola, no walkman, depois no disc-man, Mp3, plataformas digitais. Sempre esteve presente.

E mais do que de grandes músicas ou vendas, é da presença que grandes clássicos são feitos.

A música tem que estar lá. A ideia, a criação de algo inaugural, a entrega com que aquelas faixas são executadas também têm que estar lá. E estão!

Mas um clássico vai além disso quando ele passa a ser seu. Parte da sua história. Algo particular entre você e aquela obra. Uma coisa que nada nem ninguém vai te tirar. Histórias que vão revisitar seus dias sempre que você escutar aquele determinado disco. Histórias que farão você voltar ao instante em que você ouviu aquilo pela primeira vez. E lá se vão 30 anos.

Dessa forma, é importante celebrar, ouvir, repensar e celebrar tudo o que Martin, ao lado do também gigante Tom Warrior, trouxe para a música. Juntos eles construíram lembranças, criaram memórias e abriram possibilidades. Ajudaram a construir a minha, a sua, a nossa história.