MACHINE HEAD – Burn My Eyes
(Roadrunner Records – 1994)

 

  • Robb Flynn – vocal, guitarra.
  • Logan Mader – guitarra.
  • Adam Duce – baixo.
  • Chris Kontos – bateria.

 

Uma antiga resenha sobre esse disco começava com os dizeres iniciais de uma das músicas que diz: “1994… corruption, racism, hate. The church has failed… If Jesus came down, he’d be shot…”

Tive que tomar emprestada essas impressões porque qualquer parágrafo que eu pudesse escrever sobre o impacto que Burn My Eyes teve de certo não traduziria as consequências desse álbum de forma tão verossímil.

Burn My Eyes pegou pesado. Pesado mesmo. Enquanto as rádio apostavam no pós grunge procurando um novo Nirvana, o novo metal começava a dar as cartas com discos realmente muito bons como Vulgar Disply of Power, do Pantera, La Sexorcisto: Devil Music, Vol. 1, do White Zombie e Demanufacture, do Fear Factory, que viria a sair um ano depois do nosso clássico em questão, por exemplo.

Foi uma época em que fronteiras foram expandidas e as misturas foram muito bem vindas. Hardcore, rap e metal andavam juntos e assim criaram uma nova leva de bandas que trouxeram um certo frescor ao cenário da época.

No meio disso tudo, Robb Flynn, um velho conhecido no cenário da Bay Area, deu voz ao Machine Head. O cara tinha crédito na praça. Antes disso, Robb havia tocado no Vio-lence, uma respeitadíssima banda de thrash metal de São Francisco.

“Davidian”, a faixa que abre o disco, foi também o primeiro single da banda. Música de uma potência indescritível, roubou a cena e rapidamente se tornou parte do assunto de dez entre dez headbaguers na época. O clipe rolou muito na MTV brasileira na época e era impossível passar ileso aos gritos de “let freedom ring with a shotgun blast”. Uma grande música.

 

 

Burn My Eyes ainda trazia “Old”, o hino absoluto “A Thousand Lies” e “None But My Own”, uma trinca matadora e sob medida para manter a força do disco em alto nível.

“The Rage to Overcome” e “Death Church” dão mais cadência ao disco sem deixar de lado o peso, presente principalmente nos riffs carregados de ambas as faixas. “Nation of Fire” também começa mais centrada no groove, mas ao final mostra que o crossover é algo muito presente no som Machine Head, principalmente pelas influências declaradas da banda em relação a nomes como Agnostic Front e Cro-Mags, dois gigantes do hardcore de Nova York.

“Blood For Blood” é um thrashão de início tenso e riff matador no melhor estilo Slayer de ser. Depois disso, talvez a mais dispensável do disco, “I’m Your God Now”. Não é uma música ruim, mas fica pra trás em relação a qualidade das outras. “Real Eyes, Realize, Real Lies” e seu climão meio industrial e a raivosa “Block” são as encarregadas de encerrar o disco em grande estilo.

A gente sabe que pode soar estranho classificar um disco de 94 com um clássico. Mas é importante dizer que nem sempre um clássico precisa necessariamente ser aquele disco empoeirado dos anos 70 ou algum outro que sobreviva unânime no coração dos fãs. Um clássico pode, e deve, ser também, um disco que responda ao tempo de forma íntegra e que se mantenha relevante, forte e intransigente ao longo dos anos. Burn My Eyes se encaixa perfeitamente nesses significados. Um disco que expurgou uma energia visceral que aquele momento precisava e que, por essas e outras, é sim um grande clássico.