Nos anos 80 o Rio de Janeiro proporcionou ao metal uma gama de bandas muito interessantes que iam do hard/heavy do Azul Limão e Metalmorphose, até o death/thrash do Dorsal Atlântica e Explicit Hate. Mas foi em Niterói que surgiu o grande baluarte carioca do thrash metal, o Taurus.

Seu primeiro álbum, Signo de Taurus, de 1986, teve ótima repercussão de público e mídia devido à alta qualidade sonora e de composição. Muitos anos se passaram, alguma mudanças ocorreram e a banda se encontra hoje na ativa e o melhor, planejando álbum novo. Uma grande notícia para os fãs desta conceituada banda, que inclusive quase foi abertura da primeira passagem do Metallica pelo Brasil em 1989, uma das curiosidades contadas pelo baterista Sergio Bezz ao Metal Heavy. Confira abaixo muito mais sobre essa importante banda do cenário metálico brasileiro, o Taurus.

Por Murillo Leite.

A primeira coisa que me vem à cabeça quando o assunto é Taurus é o impacto que o primeiro álbum de vocês, Signo de Taurus de 1986, causou. A produção era excelente para os padrões ou se quiser chamar limitações da época e apresentava uma banda talentosa, que realmente dominava seus instrumentos. Mais de 30 anos depois como vocês analisam esta obra e o fato dele ter sido relançado há pouco tempo em vinil e CD atesta a atemporalidade do material?
Sérgio Bezz: Sem dúvida, esse impacto deixou marcas em todos nós. Até hoje sentimos o quanto ele foi importante para a cena metálica no Brasil. Agora, 30 anos depois, a cada vez que tocamos o vivo, esse impacto se renova. Ele foi nosso primeiro trabalho, éramos bem novos. Nossas referências técnicas eram aprendidas no fazer, muito diferente do processo de produção de um álbum hoje, onde já existem caminhos muito bem traçados para quem se dispõe a gravar metal. Seu relançamento em CD já havia acontecido, e se refez agora, porque já havia esgotado. O formato original de vinil foi uma surpresa para nós. O relançamento em vinil nos deixou muito contentes, porque foi possível resgatar um material gráfico daquele tempo que estava perdido, e incluir uma versão atual da música “Massacre” ao vivo. Especialmente, a capa foi redesenhada com uma técnica mais moderna pelo mesmo desenhista original, Ronan Pereira, nosso amigo desde o início da banda. Enfim, esse relançamento foi um presente pra gente e para todos aqueles que nos acompanham em todos esses anos.

Logo após o debut-album, Otávio Augusto sai da banda e entra Jeziel. Como foi para vocês ter uma mudança tão importante com tão pouco tempo de banda?
Sérgio:
Foi uma mudança que nos colocou um desafio grande. Recriar o som da banda com um novo membro. Mas antes do lançamento do Signo de Taurus tínhamos vivido várias mudanças. Éramos um grande grupo de amigos, e desde o início nos reinventávamos a cada mudança. Também a cada novo instrumento que chegava, a cada nova guitarra, novo amplificador, nova bateria, pratos, o som mudava. A mudança do vocal foi como a mudança de um instrumento.

Em 1988 vocês lançam Trapped in Lies, com fortes referências ao Metallica, principalmente pelo vocal do Jeziel assemelhar-se ao de James Hetfield. Como foi a repercussão deste disco na época (público, shows, mídia especializada), tendo em vista a delicada mudança de formação ocorrida anteriormente?
Sérgio:
Foi muito boa. Fizemos muitos shows. A mídia e o público da época recebeu muito bem o novo trabalho. Quando fazíamos as novas composições, deixávamos respirar nossas influências, e o Metallica, naquele tempo, era uma de nossas preferidas. Tudo que ouvíamos e gostávamos aparecia na pegada das músicas. Haviam outras influências naquele álbum, mas não são tão reconhecidas. O Jeziel também escrevia as letras, e ele era um cara que lia bastante. Ele tinha reflexões sobre temas humanos e mundiais que foram muito bem vindos naquela época.

O terceiro álbum, Pornography, foi lançado em 1989, porém, parece que vocês tiveram problemas de ordem burocrática ou interna que impediram que este álbum tivesse uma repercussão mais expressiva na cena. Conte-nos o que aconteceu nesta época uma vez que aparentemente o Taurus sumiu de cena por um tempo após o lançamento deste disco.
Sérgio:
É verdade. Os dois primeiros álbuns foram lançados pela Point Rock, do Rio de Janeiro. Um dos primeiros selos a produzir metal no Brasil. Já no Pornography não foi possível seguir com eles e nos articulamos com a Heavy Metal Rock, de Americana/SP (até hoje na ativa). Aliás, vai aqui nosso eterno reconhecimento ao Wílton. Fizemos um contrato de distribuição com a Polygram e tínhamos muita expectativa com ele, mas não deu muito certo. Talvez por uma certa inexperiência nossa nesse meio do mercado fonográfico, de como as coisas caminhavam. Enfim, alguns acontecimentos adversos começaram a nos colocar à prova, as coisas não estavam dando muito certo para o que planejamos. Na porta de fazermos a abertura para o primeiro show do Metallica no Brasil, no Maracanãzinho não aconteceu. A distribuição não funcionou bem. O produtor da Polygram nos deixou na geladeira, que eles faziam com muitos artistas. Os espaços de shows começaram a diminuir. Foi um período de nuvens negras.

Após um longo hiato em 2010 é lançado Fissura, com o retorno de Otávio Augusto nos vocais e a banda novamente cantando em português. É um álbum moderno em termos de sonoridade, mas com o DNA do Taurus intacto, com músicas esbanjando qualidade. Como foi para vocês compor um novo álbum após tantos anos e por que o baixista original Jean não embarcou nessa volta da banda?
Sérgio:
No período em que estávamos hibernando, surgiu a internet. Isso fez com que nos procurassem de novo, e nos pedissem os álbuns, contatos, etc. Nos animamos em nos encontrar novamente para tocar. Inicialmente o Jeziel estava com a gente. O Jean, já morando em São Paulo, não tinha a disponibilidade para voltar. O Beto de Gásperis se integrou a banda, e logo fizemos nosso retorno na abertura do Testament, no Canecão. Essa retomada trouxe o Otávio de volta. Foram vários shows com Otávio e Jeziel juntos, uma experiência e tanto. Eles se dividiram nos vocais. Naturalmente voltamos a compor. Essa sempre foi uma característica da banda, criar, compor, gravar. Cláudio (guitarra), se tornou um produtor nesses anos, com muita experiência em estúdio. Era um músico requisitado por grandes artistas no Brasil. Assim, entramos novamente em estúdio com ele à frente da produção. O resultado foi o Fissura, onde achamos importante manter nossa identidade, com o português e uma sonoridade que trouxesse nossa origem do thrash da década de 80, mas sem soar antigo, datado. Gostamos muito do resultado.

Entrevista Banda TaurusTraçando um paralelo entre os anos 80/90 e o atual no tocante a distribuição do material, como o Taurus encara a realidade virtual? Qual é a opinião de vocês sobre as plataformas digitais e o que mudou positiva ou negativamente na cena durante todos esses anos em termos gerais de estrutura às bandas?
Sérgio:
Estamos em uma realidade onde a internet comanda o mercado cultural, a vida e o hábito das pessoas. A distribuição digital permite o acesso ao material das bandas com uma facilidade inimaginável nos anos 80 e 90. Quando o Signo de Taurus foi lançado, ele era levado pessoalmente às lojas especializadas. Quem se interessava tinha que se deslocar até esses lugares para ter acesso. Isso produzia uma ligação dos aficionados do metal, que foi muito importante para criar um movimento, uma cena em cada cidade no Brasil. Hoje os grupos de amigos se fazem pelas redes sociais, muito mais do que por encontros físicos. É uma outra situação, com prós e contras. No Rio, as bandas da época, que juntas faziam a cena carioca, se encontravam nos shows uns dos outros, o que fez alguns parcerias acontecerem. O Carlos Lopes, do Dorsal Atlântica, participou em uma música do Pornography, criaram-se laços duradouros. Quanto à estrutura que as bandas têm atualmente, toda estrutura de estúdio e produção possibilita fazer um disco em casa. Mas ao vivo, não é a mesma coisa. Aí tem que saber tocar mesmo. Sem dúvida existe uma estrutura totalmente profissional para aqueles que fizeram história, mas não é simples entrar nela. É uma batalha constante.

Vocês participaram de um evento em 2013 no Carioca Club, Super Peso Brasil, em São Paulo ao lado de nomes seminais para o metal brasileiro tais como: Stress, Salário Mínimo, Metalmorphose e Centúrias. O público compareceu em grande número a este show de bandas autorais e quais são as memórias que o Taurus tem deste dia?
Sérgio: Um dia memorável! Um encontro como aquele é raro de acontecer. Tudo funcionou perfeitamente, o clima de todos era de festa, camaradagem, e seriedade. Foi uma sorte estarmos lá. Até hoje esse projeto é festejado. Ele deu frutos. Foi feito um DVD com financiamento coletivo. Mais recentemente, fizemos o lançamento de nosso DVD/CD Taurus 30 anos, com a Urubuz Records. Nele temos aquele show na íntegra, com uma edição e som fantásticos, além de vários extras.

O documentário Brasil Heavy Metal, lançado em 2016, teve a participação de vocês. Qual é o sentimento ao ver um projeto de tamanho valor ao metal do Brasil ganhar esta visibilidade?
Sérgio: Nosso sentimento é de muita alegria! O documentário ficou excepcional. Todo o processo foi trabalhoso e demorado, mas o reconhecimento veio logo. É um documento para guardar.Ficamos orgulhosos em ter participado, e podido partilhar com o público um pouco de nossa história, junto com tantos outros que foram os precursores no Brasil do heavy metal, ou melhor, do metal pesado, genuinamente brasileiro.

Quais são os planos do Taurus para 2017. Álbum novo à vista? E com relação a shows?
Sérgio:
Depois de comemorarmos bastante os 30 anos, com várias coisas, o vinil, cerveja do Taurus, shows, DVD, agora estamos em franco processo de composições para um novo álbum, que esperamos saia ainda em 2017. Particularmente, acredito que será um de nossos melhores álbuns. Com uma sonoridade nossa, mas com uma depuração técnica moderna.

Este espaço é de vocês. Deixem uma mensagem aos seguidores do Metal Heavy e vida longa ao Taurus!
Sérgio:
Vivemos nos shows um encontro de gerações, daqueles que nos acompanham desde o início, e de seus filhos, uma nova geração que se tornou também nossos admiradores. Se depender de nós vamos seguindo adiante, mas sempre dependemos também de uma estrutura e oportunidade para seguirmos. O que fizemos no passado nos torna respeitados e nos dá prestígio, mas isso não nos faz descansar, é pouco. Trabalhamos olhando para frente, no que está por vir. Que venha 2017, e esperamos encontrar com vocês virtualmente, mas principalmente fisicamente, nos shows. Até lá! Agradeço a vocês do Metal Heavy pelo espaço.

Entrevista Taurus  

Sobre o Autor

Iniciado com Queen em 81, batizado com Kiss em 83 e graduado em 89 com o Metallica. Começou a tocar guitarra em 85 e três anos depois estava inserido no mundo dos músicos e shows. A paixão pela música levou-o ao Metal e nele pôde desenvolver trabalhos por diversas bandas entre elas o Genocídio, The Cellts, Mastiff entre outras. A partir de 2012 começou a escrever resenhas de shows para veículos especializados em metal, e em 2017 surge o Metal Heavy, para ampliar sua atuação no estilo musical que o acompanhou na maior parte de sua vida.

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