Em uma época a qual a meritocracia vem sendo constantemente soterrada pela corrupção e pelo tráfico de influência em diversos setores de nossa sociedade é muito gratificante testemunhar a ascensão de uma banda como a Nervosa. Acompanhamos a trajetória delas desde o início e quem conhece essas batalhadoras do metal brasileiro sabe que as conquistas alcançadas são fruto de intenso trabalho e dedicação integral em prol da causa.

Batemos um papo com a guitarrista Prika Amaral onde pudemos adentrar um pouco mais nos meandros da emergente carreira da Nervosa. Falamos sobre as turnês que as garotas já fizeram, e irão fazer esse ano, sobre as trocas de bateristas e até se o sexismo já impactou na rotina maluca que elas se impuseram. Está pra lá de interessante, confiram abaixo!

1- Início da banda em 2010 com a Prika Amaral, Fernanda Lira se juntando à Nervosa em 2011. Sete anos de estrada. Vocês imaginariam que teriam esta repercussão toda com menos de dez anos de estrada? O que mudou e o que vocês não querem que mude em vocês?
Prika – Não esperávamos essa repercussão tão rápida, porém buscávamos isso desde o começo. Somos uma banda nova, ainda temos muito a fazer. Particularmente eu não mudaria nada em nossa curta jornada até agora. Acredito que nada é por acaso e não mudaria nem as coisas ruins, porque tudo tem um propósito.

2- O primeiro registro foi lançado em 2012, o EP com 3 músicas intitulado “Time of death”, cujo carro chefe foi “Masked Betrayer”, uma faixa que ficou bem conhecida pelo público devido ao clipe que teve uma expressiva veiculação no YouTube. Quais foram as lições e os frutos que vocês puderam tirar desta intensa experiência?
Prika – Tudo aconteceu muito rápido pra gente. “Masked Betrayer” foi a música que abriu as portas pra gente e ter lançado um clipe com uma boa produção fez toda a diferença. Foi daí que as oportunidades começaram a surgir. E foi a partir daí que assinamos um contrato com a Napalm, o que determinou uma grande parceria que sempre nos rendeu os melhores frutos possíveis.

3- Como você disse, nesse cenário, a banda fechou um contrato com a  Napalm Records da Áustria, que acabou lançando todos os registros da Nervosa internacionalmente. Como é o suporte da gravadora e o quanto ela contribuiu para o crescimento da banda globalmente?
Prika –
A Napalm sempre acreditou na Nervosa. Eles nos têm como uma grande aposta. Estamos completamente satisfeitas com o trabalho e a parceria com eles. Em tudo o que é possível, eles nos apoiam e é incrível como isso tem funcionado. O fato de ter uma grande gravadora apoiando, com certeza, foi e é algo essencial em nossas conquistas.

4- Em 2014 vocês lançam o full-lenght “Victim of yourself” e graças a excelente receptividade do público e da mídia especializada este álbum propicia uma extensa rotina de shows para a Nervosa. Podemos dizer que vocês se desenvolveram musicalmente na estrada, então quais os principais benefícios que isso trouxe a vocês? A convivência diária é um desafio ou uma aliada na visão de vocês?
Prika – Eu e a Fernanda sempre amamos a estrada e essa é a nossa vida e queremos fazer isso por muito tempo. Fizemos muitas turnês em pouco tempo. De 2015 pra cá foram 10 turnês e isso traz uma experiência maior. Sentimos menos dores, mais resistência. O que resulta em um conforto maior pra tocar e também melhora a habilidade pra tocar. Eu e a Fe somos como irmãs. A convivência pra gente não é um problema. É bem tranquila na verdade. A gente se diverte muito e isso é o nosso aliado.

5- Particularmente, acredito que toda essa realidade dinâmica gerou uma inconstância no posto de baterista da Nervosa. Procede este raciocínio? É possível apontar os motivos que levaram às trocas de integrantes deste instrumento e qual é a situação atual no que tange as baquetas da banda?
Prika- Quando existe uma diferença de opinião e de objetivos, isso uma hora ou outra traz problemas. Claro, estar na estrada o tempo todo não é fácil. É super intenso, mas se você gosta e é isso que você quer tudo bem, senão isso é um problema. A dificuldade de toda banda é sempre achar um integrante que queira exatamente 100% as mesmas coisas. É isso que traz uma harmonia perfeita. É por isso que a parceria com a Fe sempre deu certo. Queremos as mesmas coisas. Agora temos a Luana Dametto assumindo as baquetas e pelo pouco tempo que ela está com a gente já pareceu se encaixar muito mais que as outras. Ela tem uma ideia mais próxima da nossa e está bem decidida no que quer. Tem tudo para permanecer até o último dia em que a banda existir.

6- Em 2016 vocês gravaram o álbum “Agony” nos EUA com a produção de Brendan Duffey e a mixagem/masterização do renomado produtor Andy Classen. Na minha opinião, um álbum excelente, com músicas fortes, ótima produção e musicalidade impecável. Alçou a Nervosa a um patamar acima e tecnicamente, em que aspectos gravar um álbum nos EUA difere de gravar aqui no Brasil?
Prika –
A experiência de gravar fora do Brasil foi muito legal, o que contribuiu com um clima diferente pra inspirações e tudo mais. Tínhamos uma turnê pra fazer nos EUA e porque não gravar por lá antes da disso? E foi muito legal poder realizar um desejo de todas. Temos estúdios muito bons no Brasil que não perdem nada para os de fora, o que muda é a especialização do estilo, que aqui temos poucas opções.

7- Creio que a tour que vocês fizeram ao lado do Destruction, Flotsam & Jetsam e Enforcer na Europa no final de 2016 tenha sido a maior da carreira de vocês. O que vocês podem nos contar sobre dividir palcos com bandas de tal importância em países que não o de vocês?
Prika –
Cada segundo dessa turnê foi um sonho, tudo foi 100% especial que até bateu um vazio no final…hahaha. Além de tudo ter sido maravilhoso e perfeito, fizemos grandes amizades para a vida toda. Não tenho palavras para descrever tamanha importância que essa tour teve na carreira da banda e também como experiência pessoal. Foi algo incrível e indescritível.

8- Vocês acabaram de retornar de uma bem-sucedida tour, novamente com o Destruction pela Europa. Ainda estamos muito aquém em termos de estrutura de shows se comparando a outros países? Há muita diferença entre o público europeu e o americano?
Prika –
A diferença entre Brasil/América Latina e Europa e USA, são as condições financeiras. O amor ao metal e a música é igual, porque a cultura do rock/metal é a mesma. A diferença está no poder aquisitivo. Aqui temos muito mais dificuldades pela nossa situação financeira difícil.

9- Uma pergunta de cunho pessoal: ao longo da trajetória vocês já sentiram algum tipo de tratamento diferenciado ou até mesmo sexista pelo fato de serem mulheres em um meio por vezes conservador como o Metal?
Prika –
Vivenciamos algumas coisas sim, mas foi por muito menos tempo do que eu achava que iria enfrentar. Pode também ser algo que não dei importância e, portanto, passou despercebido várias vezes. Sempre mantivemos o foco nos objetivos e isso nunca nos afetou.

10- Quais são os planos de vocês para 2017 em termos de shows, lançamentos, etc.?
Prika –
Continuaremos promovendo o disco “Agony” em turnê o ano todo. Temos shows no Brasil, na América Central, na Europa e no leste Europeu confirmados. Temos planos para turnê na América do Sul e EUA. Além disso estamos começando a compor um próximo disco sem previsão de lançamento.

11- Este espaço é de vocês. Deixem uma mensagem aos seguidores do Metal Heavy e boa sorte à Nervosa!
Prika – Agradeço imensamente pelo espaço e pela oportunidade. Obrigada a todos os fãs e leitores. Com respeito chegaremos onde queremos. Valeuuuu!

Sobre o Autor

Iniciado com Queen em 81, batizado com Kiss em 83 e graduado em 89 com o Metallica. Começou a tocar guitarra em 85 e três anos depois estava inserido no mundo dos músicos e shows. A paixão pela música levou-o ao Metal e nele pôde desenvolver trabalhos por diversas bandas entre elas o Genocídio, The Cellts, Mastiff entre outras. A partir de 2012 começou a escrever resenhas de shows para veículos especializados em metal, e em 2017 surge o Metal Heavy, para ampliar sua atuação no estilo musical que o acompanhou na maior parte de sua vida.

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