Me lembro muito bem do dia em que adquiri o Campo de Extermínio, do Holocausto, e mostrei a capa à minha mãe. A surpresa dela não foi nada agradável, afinal a memória do período da Segunda Guerra Mundial estava muito mais latente na mente dela do que na de um adolescente que via nas atitudes impensadas uma forma de protesto.

Creio que muitas pessoas devem ter tido a mesma impressão que minha progenitora e não compreenderam que aquela banda de Belo Horizonte estava somente retratando, ou melhor, musicando um capítulo triste da história da humanidade. Indo além do fator antropológico, o que aqueles caras com visual carregado em couro e spikes estavam buscando era uma identidade que levaria o Holocausto ao patamar das grandes bandas extremas da prolífica cena de BH.

Para a sorte de fãs como eu, o Holocausto está mais forte que nunca e para atestarmos isso conversamos com o guitarrista Valério Exterminator, o vocalista Rodrigo Fürher e o baterista Anderson Guerrilheiro para entendermos mais sobre esse universo fascinante construído por essa banda com tantas peculiaridades. Garanto que os leitores do Metal Heavy irão curtir demais esse papo.

 

O Holocausto pertence à primeira leva de bandas de metal extremo de Belo Horizonte, contemporânea a Sepultura, Sarcófago, Mutilator entre outras. Como o Holocausto se inseria pessoalmente nesta cena, uma vez que é notório o histórico de desavenças entre Sepultura e Sarcófago e isso impactava no relacionamento entre os integrantes das bandas da época?
Valério: O Holocausto sempre teve amizade com todas as bandas. Nossa turma era formada por hippies, punks, roqueiros. O que nos unia era a amizade e não somente um estilo musical, mas sim um estilo de vida. Não sei se essas desavenças entre as bandas citadas impactavam no relacionamento das outras bandas, mas com certeza não impactava para os integrantes do Holocausto.

A coletânea “WarfareNoise” de 1986 trouxe importantes nomes do metal mineiro à tona, em sua opinião como ela foi relevante para a história do Metal e do próprio Holocausto?
Valério: Sem dúvida foi de extrema importância. Como não havia outra forma de divulgação naquela época, pois não havia internet, a coletânea lançou para o Brasil e fora dele, os nomes das 4 bandas. O Holocausto até então não tinha tocado fora de MG e com a coletânea já fomos procurados para tocar principalmente no interior de SP. Penso que para a história do metal e do Holocausto a coletânea foi um divisor de águas.

O álbum Campo de Extermínio foi lançado em 1987 e abordava a era do nazismo. Você acha que o Holocausto foi mal interpretado nesta época por uma suposta apologia a este período da história? Se fosse lançado nos dias de hoje como você imaginaria a receptividade diante de uma temática tão controversa?
Anderson: Esse álbum, em sua essência, expressava a guerra em especial aquela da Segunda Grande Guerra. Foi uma expressão artística, assim como atores fazem filmes do mesmo tema, mas com certeza o que fez as pessoas confundiram foi o fato do visual de guerra e com algumas vezes o uso da suástica, porém as fotos não eram nítidas, pois muitas delas a suástica estava com o desenho em ruínas, outras vezes com um risco de proibido o que significava que ninguém apoiava aquilo. E assim, tantos jovens daquele tempo expressavam a sua rebeldia dessa forma. Talvez, se fosse lançado hoje teria mais polêmica ainda porque vivemos em um mundo onde se deve pensar bem antes de se expressar algo, ou seja, atualmente há uma certa redução de nossas liberdades.

Em 1988 vocês lançaram o disco Blocked Minds, com letras em inglês e uma sonoridade voltada ao crossover. Como foi a resposta do público e da mídia especializadadiante de tantas mudanças em um breve espaço de tempo?
Anderson: É um disco que curto muito devido a novidade pra época e o tipo de som que hoje se torna mais atual. Não foi muito bem recebido na época devido a tanta mudança assim, o erro foi não ter mudado o nome porque trata-se de uma nova banda com um novo estilo. Pra resumir e melhor descrever a crítica descrevo um show que demos em SP com Ratos de Porão. Tocamos o tempo todo debaixo de cuspes e ameaças do público. Eu, como estava mais a frente cantando, sai totalmente molhado, mas no final do show o público abril espaço pra banda porque pra sair do palco era a única forma e fomos aplaudidos, vai entender (risos).
Rodrigo:
Tanto público quanto mídia ficaram perplexos com a mudança drástica do direcionamento musical da banda. Vale ressaltar que sempre tivemos a pecha de banda maldita e na verdade pela mudança de formação. Quando metade da banda, Valério Exterminator e Armando Nuclear Soldier, saíram ficamos muito frustrados pois não podíamos continuar a tocar War Metal sem eles. Então resolvemos fazer um outro projeto cantado em inglês e mais voltado para o crossover e o metal punk. Esse projeto logicamente teria outro nome pois se tratava de outra banda, mas por questões contratuais mantivemos o nome de Holocausto

Nos anos 90 o Holocausto lançou álbuns experimentais como “Negatives” (91) e “Tozaigo as Deismno” (93). Poderiam dizer o que os motivou a mudar a sonoridade nesta época? Podemos atribuir a quais bandas, digo influências, este período de mutação criativa?
Rodrigo: Hoje encaro essa mudança constante como muito natural. A partir do momento em que ligamos o foda-se pra tudo, as únicas coisas que importavam eram a música. A necessidade de nos expressarmos musicalmente e o compromisso de não ficarmos presos a rótulos e bandeiras nos proporcionou a liberdade para experimentar cada vez mais e mais fundo. Inicialmente as influências se restringiam aos estilos extremos como death metal, death core, grind, crust e hardcore, mas depois fomos incorporando como referências elementos de jazz, folk, música erudita, avant garde, etc.

Após estes registros o Holocausto entrou em um hiato que viria a ser desfeito somente em 2005 com o lançamento do ótimo De Volta Ao Front, voltando a cantar na língua pátria e trazendo uma sonoridade que remetia ao War Metal praticado em “Campo de extermínio”, com altas doses de grindcore e crust. Como foi para vocês retornar à cena e como vocês a encontraram quase dez após o hiato da banda?
Rodrigo: Esse reencontro se deveu ao fato da Cogumelo Records reeditar o clássico álbum Campo de Extermínio relançando-o em CD com a música “Massacre”, da demo tape de 1985 como bônus. Eu sempre tive contato com o Anderson Guerrilheiro, mas o Valério Exterminator não o via desde a sua saída em 1987. Foi um período difícil, era uma outra realidade, diferente demais para todos nós, mas superamos todas as adversidades e conseguimos lançar um material que considero relevante para a época, um tipo de gravação contrária a todas as outras pois era uma época pautada por gravações cada vez mais técnicas e assépticas.


Para 2017 vocês programaram o lançamento do álbum War Metal Massacre, inclusive há um lyric vídeo de “Eu Sou A Guerra” disponível, o que gerou expectativa entre os fãs. O que você pode nos adiantar desta vindoura obra em termos de conteúdo musical e formatos de disponibilização (CD, LP e plataformas digitais)?
Rodrigo: Esse novo lançamento, War Metal Massacre, partiu de uma ideia de comemorarmos os 30 anos das primeiras gravações do Holocausto. Conseguimos reunir a formação original com o Nedson Warfare Tank assumindo as baquetas e regravamos a música Massacre da demo tape de 1985 e as músicas Destruição Nuclear e Escarro Napalm da clássica coletânea Warfare Noise, de 1986. Em contrapartida fizemos três músicas novas tentando resgatar o War Metal dos primórdios do Holocausto. São elas: Eu sou a Guerra, Corpo Seco/Mão Morta e War Metal Massacre. Foi gravado no estúdio Engenho do Andreevil Cabelo, do Chakal. Se trata de um petardo de Metal de Guerra e que será a tônica dos próximos lançamentos da banda. Inicialmente sairão versões em CD e LP pela Nuclear War Now

E com relação a shows, como tem sido a agenda do Holocausto e quais os planos neste sentido? Uma vez que a formação de Campo de Extermínio está de volta e com o aniversário de 30 anos desta obra prima seria uma ideia executá-lo na íntegra ao vivo?
Valério: Temos alguns shows 100% agendados para celebrar os 30 anos de Campo de Extermínio. Na maioria dos shows vamos executá-lo na íntegra, em alguns shows devido a número maior de bandas e duração menos no palco, vamos executar algumas músicas do Campo e completar com o War Metal Massacre na íntegra.

Sendo uma banda reconhecida também em outros países e havendo uma maior facilidade em se organizar uma tour nos dias de hoje há planos de o Holocausto se apresentar no exterior?
Valério:
A dificuldade em realizar uma tour está na situação que não vivemos de música, portanto temos nossos trabalhos. O máximo que podemos é fazer um show nos finais de semana. O show em Berlin foi uma exceção pois coincidiu com as férias de alguns integrantes, ainda assim, o Anderson retornou ao Brasil um dia após o show.

Poderiam tecer uma análise da cena pesada do Brasil na atualidade, a visão de uma banda de mais de 30 anos de história? O que para vocês mudou pra melhor e o que pode ser ainda aperfeiçoado?
Anderson: Hoje há uma facilidade em trabalhar com as músicas devido ao avanço tecnológico como instrumentos e estúdios, ouve-se muito melhor o som e assim fica mais fácil de criar e arranjar uma música. Vejo que há grandes bandas com boa energia nos palcos e com muita criatividade, porém o lado ruim é que a diversidade de estilos fez o público ficar rachado, o que nunca deveria ocorrer porque o metal é um apenas e isso faz com que o movimento não cresça o tanto que realmente merece.

Este espaço é de vocês. Deixem uma mensagem aos seguidores do Metal Heavy e boa sorte ao Holocausto!
Holocausto: agradecemos ao interesse do METAL HEAVY em nos entrevistar, é sempre bom ter um espaço para divulgar nossas ideias e relembrar o que vivemos nos anos 80. A importância dos anos 80 e o legado que foi deixado nas gerações seguintes, sempre será comentada nas mídias especializadas da música metal. Desejamos sorte e vida longa ao site METAL HEAVY que, assim como o Holocausto, ele possa atravessar décadas e deixar seu legado para o metal nacional. Aos que curtem nossa banda, deixamos nosso agradecimento, pois não haveria sentido existirmos sem o apoio de vocês, nossos bangers tupiniquins. Mantenham-se nas trincheiras!

Entrevista Holocausto

Sobre o Autor

Iniciado com Queen em 81, batizado com Kiss em 83 e graduado em 89 com o Metallica. Começou a tocar guitarra em 85 e três anos depois estava inserido no mundo dos músicos e shows. A paixão pela música levou-o ao Metal e nele pôde desenvolver trabalhos por diversas bandas entre elas o Genocídio, The Cellts, Mastiff entre outras. A partir de 2012 começou a escrever resenhas de shows para veículos especializados em metal, e em 2017 surge o Metal Heavy, para ampliar sua atuação no estilo musical que o acompanhou na maior parte de sua vida.

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