Por Vinicius Castro

Os princípios desbravadores de bandas como Venom, Hellhammer e Bathory. O incômodo causado pelo Impaled Nazarene, Beherit e Sarcófago. Por fim, a determinante ruptura com qualquer forma de socialização sonora plantada pelo Darkthrone e Emperor. Seria simples demais dizer que o Death By Starvation se resume a essa equação, então é importante dizer que a coisa vai um pouco mais longe. É black metal genuíno com todos os seus pilares estéticos e musicais. Arte concreta, dura, torta, amarga e carregada de emoção. Talvez isso explique um pouco. Melhor, todo o horror disseminado pelo Death By Starvation reflete a angústia do ser humano em ser humano. Lidar de frente com isso é pra poucos, mas o incômodo do black metal é para todos. Bem vindos ao universo do Death By Starvation.

 

1- Seguindo o famoso “vamos começar pelo começo”, como vocês descreveriam o Death By Starvation para alguém que nunca teve contato com a banda e ainda é novato(a) no black metal?
III – Eu diria que o Death By Starvation é como nós gostaríamos que bandas como Darkthrone e o Impaled Nazarene soassem hoje em dia. É nossa tentativa de resgatar os grandes anos do estilo. Se você é novato no Black Metal e não conhece essas bandas, vá ouvi-las antes mesmo de nos ouvir.
II – Todos nós somos apreciadores do heavy metal em todas as suas vertentes e da música extrema em geral. O Death by Starvation é a junção, ou até mesmo a “homenagem”, de nosso apreço especial por essa vertente tão peculiar e única que chamamos de black metal. Estilo que tem uma estética tanto sonora como visual diferente dos outros subgêneros do heavy metal.

2- Até o momento vocês têm um disco lançado e acabaram de soltar uma versão demo de uma música nova. Como funciona o processo de composição da banda?
II – O processo é totalmente natural. Sonoramente, as músicas refletem o que escutamos e o que gostamos. Na época da composição do disco eu escrevi basicamente todas as músicas e o I as letras. Agora, com a entrada do IV, a composição está dividida.

3- A virada da década de 80 para a de 90 redefiniu um pouco o termo black metal. Digo isso porque quando apareceu o Venom e o próprio Bathory, a gente chamava aquilo de rock pesado. De heavy metal. O black metal mesmo veio com o surgimento de bandas como o Mayhem e o Beherit. Depois, bem colado, vieram Immortal, Emperor e Darkthrone. Essa transformação na estética musical do black metal tem relação direta com o posicionamento, a música e a visão de mundo de vocês? Qual são os temas das letras de vocês?

III – Eu acho que o que ajudou muito a instituir isso como black metal foi tudo o que rolou na Noruega musicalmente e, por que não dizer, politicamente no início dos anos 90. A partir de lá, toda estética de corpse paint e spikes usadas por garotos que queimavam igrejas foi espalhada para o mundo como sendo “o black metal”. Mas, para a gente, o black metal sempre foi o primitivismo que o Venom, Bathory e o Sarcófago faziam nos anos 80, assim como as bandas já citadas na pergunta. Eu ainda citaria o VON e o Blasphemy com importante papel nisso. É claro que musicalmente somos muito mais influenciados pelas bandas dessa segunda leva do estilo, mas acho que ideologicamente seguimos mais nosso próprio caminho do que propriamente o satanismo pregado por essas bandas noventistas.
IV – Também não podemos esquecer que o black metal já estava rolando em várias outras partes do mundo antes de toda essa exportação do rótulo e de uma estética mais consolidada pelo “mainstream do underground”. Embora a Noruega tenha ganhado notoriedade, principalmente por conta do sensacionalismo em torno dos acontecimentos polêmicos, o som extremo e a estética em torno do satanismo, ocultismo, etc. já estava presente com suas características específicas em cenas locais na Suíça, Grécia, Escandinávia e até uns loucos nas Américas e no Brasil. Acho que o Death By Starvation bebe um pouco de todas essas cenas e épocas. Ideologicamente, o que o black metal nos trouxe é essa aproximação com a dimensão mais obscura do ser humano e toda a busca por libertação dos dogmas que ele inspira.

4- Ainda sobre isso, o que vocês acham dessa recente abordagem mais, digamos, mainstream, do black metal? Longe de mim parecer saudosista, mas era algo agressivo usar uma camiseta do At War With Satan. Hoje é comum ter bodes e cruzes invertidas em camisetas por aí. Vocês acham que o black metal passou a ser só um estilo de música e perdeu um pouco o seu caráter ameaçador?
II – A difusão do black metal para o “grande público” foi algo natural. Ao mesmo tempo algumas bandas se esforçaram para permanecer fora disso. Acho que cada banda escolheu seu caminho e tem seus objetivos. Mas concordo que hoje em dia o black metal não choca mais ninguém. Não sei dizer se isso é bom ou ruim. Acho que é apenas o modo como as coisas evoluíram.
III – Eu acho que houve um movimento de pessoas que buscaram no som e na estética do black metal uma ruptura da realidade que elas não encontravam em outras vertentes artísticas. Essa busca acabou incorporando o black metal no cinema, na moda e nas artes plásticas e isso invariavelmente gerou uma aceitação maior das pessoas para o estilo. Ainda existem pessoas que vivem o black metal em sua “essência”, mas no geral eu acho sim que ele se tornou muito menos assustador e transgressor como já fora.
IV – O black metal já havia virado um produto enlatado e comercializável nos anos 80 (primeira geração) e 90 (segunda geração), assim como o metal em geral. Basta ver ao longo dos anos a presença cada vez maior nos elencos das grandes gravadoras, o espaço nas revistas especializadas e todo o sensacionalismo que se criou em torno dos fatos alargando o bolso de alguns. Natural que isso atraísse cada vez mais novos moleques e gerasse repúdio por outros. No Brasil, me parece que a popularização do estilo ficou forte no início dos 2000 por conta das edições nacionais de alguns CDs e pelo espaço concedido por aquelas revistas tipo Rock Brigade para algumas bandas. Junto a isso veio tudo isso que você mencionou na pergunta. Claro que o “espírito” do black metal ainda movimenta e inspira muita coisa de forma autêntica e verdadeira, mas a real é que existe um lado da coisa que ganha a imprensa e a popularidade, enquanto a outra permanece criando no subterrâneo. Uma é verdadeira e a outra é falsa? Creio que não! Não acho que sejam, a rigor, duas esferas isoladas e, ao meu ver, estão sempre se influenciando. O que é chocante hoje, amanhã vira uma camiseta. E o que é uma camiseta hoje, pode gerar o Tom Warrrior de amanhã.

5- Existem bandas mais novas que vocês se identifiquem e possam indicar pra gente?
II – Confesso que eu não ando muito antenado com o que vem acontecendo com as novas bandas, porém com certeza me identifico com algumas bandas da geração pós anos 90. Gosto muito dos primeiros discos do Deathspell Omega, acho que o Batushka trouxe algo de diferente em termos de clima e melodia. O Craft também não pode passar batido. E recentemente ouvi uma banda da República Checa chamada Death Karma que é muito boa. Isso sem citar as nossas conterrâneas como Bode Preto, Creptum, Brutal Morticínio.
III – Das bandas mais “recentes” eu gosto muito do MGLA, One Tail One Head e do Craft. E claro o Deathspell Omega que acho simplesmente brilhante. Das bandas nacionais, eu gosto muito do Mácula, do Velho e do Slov.
IV – Acho que os caras velhos do black metal também continuam fazendo coisas interessantes com novas bandas, como por exemplo o Gaahls Wyrd. Do Brasil eu recomendo essas que foram citadas pelo II e III.

6- Algumas vezes e, para algumas pessoas, o black metal é motivo de piadas ou é por vezes ridicularizado. Por outro lado, talvez ele ainda seja pouco compreendido em sua essência, motivações e maneira de estruturação das músicas. O que vocês acham disso? O quanto o black metal representa fielmente uma banda como o Death By Starvation?
II – Essa é uma das belezas do black metal. Se por um lado ele se tornou “popular” por outro ele ainda mantém sua essência que, em parte é ser horrível e desconfortável para as pessoas. Então concordo que ainda hoje é um estilo que não é totalmente compreendido por todos, as vezes até por pessoas que gostam de metal extremo.
III – O black metal é a única razão pela qual a banda nasceu e existe. Eu particularmente não me importo se as pessoas caricaturaram ele. Minha relação com o black metal ainda é a mesma de quando eu tinha 15 anos e comprava fitinhas do Immortal na galeria.
IV – O Death By Starvation é autobiográfico, carrega todas as influências de black metal acumuladas em vários anos por seus membros de uma vez só.

7- Mais uma vez, obrigado pela entrevista e pra terminar, quais são os planos de vocês para um futuro próximo? Shows, discos…
II – Nós que agradecemos pelo espaço! Os planos são de propagar a praga do Black Metal. Estamos agendando alguns shows para esse semestre enquanto estamos e pré-produção de um novo disco que provavelmente será gravado no próximo semestre.

entrevista Death By Starvation

Sobre o Autor

Jornalista, guitarrista do Huey e apaixonado por música desde sempre.

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