Foi impacto à primeira vista. Quando eu vi aquela capa com o logotipo em chamas e a cruz branca invertida, senti que aquele disco não sairia mais da minha vida. Não é exagero, não. Ouvi “Pentagram” do Possessed no final de 85, no saudoso Comando Metal do eterno Walcir Chalas e aquilo me deixou estupefato! Jeff Becerra, Mike Torrao, Larry Lalonde e Mike Sus… Era como se o Metallica, o Slayer e o Venom se fundissem numa banda só, incrível! Por obra do destino acabei ganhando o álbum numa promoção do próprio Comando Metal e desde então ele não deixou de frequentar a minha discografia essencial. O Possessed não lançou muitos álbuns, na verdade somente dois full-length e um EP, por isso este faixa a faixa na verdade será excepcionalmente feito considerando os álbuns, mas marcou definitivamente a história da música extrema mundial.

 

Seven Churches (1985)

Oriundos da Bay Area, o Possessed fugia do perfil que predominava nessa região nos anos 80 e investia no visual carregado e nas letras satânicas. Lançado em outubro de 1985, o álbum Seven Churches de cara impressionava com a introdução de “Tubular Bells” de Mike Oldfield, tema do filme O Exorcista que abria a faixa “The Exorcist”. Em seguida a já citada “Pentagram”, com seu peso mastodôntico e riffs altamente cortantes! “Burning Hell” mantém o nível de agressividade e técnica bem alto, aliás, apesar da gravação rudimentar nota-se que a banda na íntegra domina bem seus instrumentos. Em “Evil Warriors” há uma cadência na velocidade, mas a música não perde em nada em termos de intensidade, com seus riffs combinando complexidade e precisão.

Um começo arrasador… é “Seven Churches” sendo executada, a banda percorre bases complexas e tempos variados mais uma vez mostrando sua ampla destreza nas cordas e tambores. Uma aula de death metal, essa é “Satan’s Curse”, refrão forte, solos matadores, inclusive com direito a um duelo de alavancadas espetacular. Sou suspeito para falar de “Holy Hell”, uma das minhas favoritas, com seu quê de Venom e temas de guitarras dobradas em profusão. Excelente trabalho da dupla Lalonde/Torrao!

Guitarras arrastadas anunciam “Twisted Minds” e Jeff Becerra canta o “Revenge” do refrão com notável fúria. O sino soando em “Fallen Angel” sempre me transporta à primeira vez que ouvi essa faixa, realmente fiquei arrepiado com tamanha malevolência. Para encerrar a música que deu nome ao estilo que evolui constantemente, apesar de algumas pessoas rechaçarem esse caráter inventivo do estilo. “Death Metal” encerra de forma magistral essa obra, e na época indicando que o Possessed faria muita música boa em nome da extremidade no futuro.

 

Beyond The Gates (1986)

Uma introdução extremamente bela abre este álbum, lançado no Dia das Bruxas de 1986, e de cara ao tocar a primeira faixa “The Heretic” notamos que a gravação está muito a frente do primeiro álbum da banda. Mixagem equalizada, timbres nítidos dos instrumentos, uma capa em que a cruz invertida não faz mais parte do logotipo da banda. O Possessed havia mudado. “The Heretic” é sucedida por “Tribulation” onde o vocal de Jeff Becerra se destaca em meio a riffs eminentemente thrash e solos de muita técnica. “March to Die” possui palhetadas imponentes e um refrão de fácil assimilação, direta e reta! É possível notar de onde o Sepultura bebeu para compor o Schizophrenia. “Phantasm”, a faixa seguinte, tem apelo thrash e climas variados, mostrando toda a versatilidade da banda e um final de música inesperado.

“No Will to Live” é urgente, tem quase sete minutos de duração e diversas passagens, tornando a audição imprevisível. Um trabalho surpreendente da dupla Torrao/Lalonde. A faixa título é cadenciada e recheada de temas intrínsecos com abundância de notas. Já “Beasts of the Apocalypse” nos leva a climas a la Seven Churches. “Seance” tem nome estranho, mas a faixa é uma das mais elaboradas do disco, com muitos climas death metal e solos bem construídos. “Restless Dead” tem início e bases corridas, remetendo a HC, fundidos ao típico som do Possessed com riffs ultra rápidos. Para encerrar esta magnífica obra “Dog Fight”, uma outro instrumental com solos alternados e final com fade out.

 

The Eyes of Horror (1988)

Produzido pelo professor de guitarra de Larry Lalonde à época, Joe Satriani, The Eyes of Horror possui alta qualidade sonora e produção esmerada. Na verdade trata-se de um EP com cinco faixas, cuja capa é de um visual espetacular! Abre magistralmente com “Confessions”, petardo da banda que quando teve zelo na produção pode mostrar toda complexidade de sua música. Os riffs acelerados convidam ao headbanging e o final da música é prova disso. “My Belief” apresenta  a banda intercalando bases rápidas e cadenciadas, sempre com bastante habilidade. Mike Sus, por conta da produção, tem performance irrepreensível neste registro. Um som clássico, aquele que parecia apontar que a banda evoluiria mais nos anos seguintes.

A faixa título é de uma magnitude pouco vista, um autêntico tesouro do metal extremo. Velocidade constante e peso absurdo, tudo tocado com maestria. “Swing of the Axe” expõe todo o leque musical da banda, que passa por diversos temas sem soar desconexa, talvez o grande desafio que o próprio Possessed se impunha e ao mesmo o executava com tamanha naturalidade. O fim se dá com “Storm in My Mind” com uma introdução de guitarra de tirar o fôlego, talvez tenha sido a presença do senhor Satriani que tenha inspirado o Possessed. Mais uma música surpreendente da banda, com solos cheios de Pitch, uma qualidade da banda em inserir estes elementos sem descaracterizar seu som.

Infelizmente, por conta de diversos fatos, tal como o fatídico assalto à agência de banco em que Jeff Becerra se encontrava, que o deixou paralítico em 1991, o Possessed teve uma trajetória promissora, mas curta a julgar pela enorme processo de evolução em que a banda atravessou e que vislumbrava um futuro ainda mais prolífico. Quis o destino que fosse assim, então só nos resta apreciar o que foi lançado por eles e que sempre será referência para o que chamamos de extremo no metal.

Sobre o Autor

Iniciado com Queen em 81, batizado com Kiss em 83 e graduado em 89 com o Metallica. Começou a tocar guitarra em 85 e três anos depois estava inserido no mundo dos músicos e shows. A paixão pela música levou-o ao Metal e nele pôde desenvolver trabalhos por diversas bandas entre elas o Genocídio, The Cellts, Mastiff entre outras. A partir de 2012 começou a escrever resenhas de shows para veículos especializados em metal, e em 2017 surge o Metal Heavy, para ampliar sua atuação no estilo musical que o acompanhou na maior parte de sua vida.

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