A data, 3 de abril de 1991, o local, Aeroanta, a banda que iria tocar, Sepultura. Esta era a atração do programa “Ensaio Geral” da 89 FM de uma quarta-feira que ficou para sempre na minha memória.

Tudo começou quando um colega meu da FAAP me ligou para saber se eu conhecia alguém que tivesse um microfone para emprestar, pois um casal oriundo da França estava em São Paulo e iriam fazer uma entrevista “com uma banda internacional”. Pensei em um primeiro momento que se tratava de uma banda gringa que estivesse tocando aqui, porém, ao ouvir que banda seria tratei logo de acionar contatos para descolar o artefato, já que me fora prometido ficar no palco do show caso eu conseguisse atender a solicitação.

Com o microfone em punho me dirigi até o local pouco antes do fim daquela tarde ensolarada e pude notar que uma imensa aglomeração de pessoas se fazia presente no largo da Batata. Encontramos o casal francês na porta do local e adentramos rumo ao camarim.

Lá estavam Andreas tomando cerveja, Igor conversando com João Gordo, pra quem se lembra do camarim do Aeroanta nessa época ele era enorme, iniciando atrás do palco e indo até o que viria a ser depois um mezanino. Exatamente neste local estava um já entusiasmado Max Cavalera com um engradado inteiro de cerveja à sua disposição. Acho que deu pra sacar o porquê de tanta animação…risos.

Sepultura

Faltavam poucos minutos para o início da apresentação e o clima nos bastidores era intenso, roadies indo e vindo, por parte do público muita ansiedade, afinal o Sepultura havia tocado em São Paulo pela última vez havia mais de ano.

Com a intro executada, um trecho de “We gotta know” do Cro-Mags adaptada pela banda, começou o massacre. Realmente, o Aeroanta ficou pequeno para tamanha destruição. Emendando com “Arise” o setlist foi tocado com entrosamento assustador, banda afiada, totalmente ensaiada. Stage-diving estava fora de cogitação logo então se formaram rodas de mosh violentas.

Sem pestanejar, “Inner Self” e toda a rebeldia que ela traz foi tocada a uma velocidade bem superior à do álbum de estúdio. Na sequencia “Mass Hypnosis” com Max incitando o público como havia feito no Rock In Rio II meses antes. Perfeita!

Já elevada à condição de hit “Dead Embryonic Cells” foi executada e cantada por todos no local. A parte da palhetada marcada no meio do som fez a crew inteira deles ficar atenta tamanha a empolgação dos headbangers que se acabavam na frente do palco.

“Troops of Doom”, a única da fase mais extrema da banda prosseguiu o massacre colada em “Murder”. Uma inusitada “Altered State” foi tocada com maestria. Eu, particularmente estava com o Arise bem latente na memória da época e me surpreendeu de fato a inclusão desta faixa no setlist.

Sepultura

Uma das minhas favoritas, “Slaves of Pain”, originalmente escrita pela banda anterior de Andreas Kisser, Esfinge/Pestilence, foi brutalmente lançada sobre o público que se acotovelava incessantemente. Me chamou a atenção o fato de Andreas não ter usado pedal nesse show, somente a distorção vinda dos Marshalls. Estando no palco de uma banda desse porte você vê uma realidade de produção bem diferente, com roadies entrando no clima do show e trabalhando exaustivamente.

Um pouco cansado pela loucura emanada no recinto resolvi sentar no praticável do Igor e assistir a execução de “Meaningless Movements”, fantástica performance acompanhada de muito perto. A música que abalou as rádios em 91, o cover para “Orgasmatron” fez o Aeroanta literalmente implodir, era impossível manter-se indiferente à toda aquela energia vibrante.

Um breve intervalo e o Bis vem com a matadora “Beneath The Remains” sucedida do último ato, o cover de “Symptom of The Universe” do Black Sabbath, culminando com um arriscado stage-dive de Max, como se estivesse abraçando a plateia em agradecimento à sinergia presenciada nessa quase uma hora e meia de show.

Após esta catarse coletiva nos dirigimos ao camarim aonde a festa rolava solta com muita cerveja e convidados, alí pude ter uma conversa mais direta com o Max, que contou ao casal francês sobre suas impressões dele o país de origem deles entre outras coisas. A entrevista foi realizada em meio a uma baderna enorme, o microfone falhou algumas vezes, os franceses ficaram meio bravos mas dane-se, eu já tinha tido a minha chance e a aproveitei…FIM

Setlist do dia do show autografado pela banda (frente)

 

Setlist do dia do show autografado pela banda (verso)

Sobre o Autor

Iniciado com Queen em 81, batizado com Kiss em 83 e graduado em 89 com o Metallica. Começou a tocar guitarra em 85 e três anos depois estava inserido no mundo dos músicos e shows. A paixão pela música levou-o ao Metal e nele pôde desenvolver trabalhos por diversas bandas entre elas o Genocídio, The Cellts, Mastiff entre outras. A partir de 2012 começou a escrever resenhas de shows para veículos especializados em metal, e em 2017 surge o Metal Heavy, para ampliar sua atuação no estilo musical que o acompanhou na maior parte de sua vida.

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