Prong – Beg To Differ
(Epic – 1990)

 

  • Tommy Victor – vocal/guitarra.
  • Mike Kirkland – baixo.
  • Ted Parsons – bateria.

 

No início da década de 90, o heavy metal vivia uma fase de mudança. Poucas bandas sobreviveram à explosão do grunge, outras se reinventaram e uma outra parcela trouxe um frescor necessário para uma época em que a música andava sedenta por renovação.

Entre os discos que fertilizaram uma nova leitura para a música que se fazia naqueles dias estavam o La Sexorcisto: Devil Music Vol. 1, do White Zombie, Vulgar Display Of Power, do Pantera e Meantime, do Helmet. Todos eles lançados em 92.

Mas, antes disso, em 1990, um outro disco já dava indicadores de que aquela seria uma década promissora. Era Beg to Differ, do Prong.

Sabe aqueles riffs quebrados, brecados e cheio de groove que ficaram famosos nas mãos das três bandas que eu citei um pouco mais acima? Dois anos antes eles já existiam na mente criativa de Tommy Victor, o responsável pelas guitarras e vocais do Prong. Segundo o próprio Tommy Victor, o que ele fez foi pegar um pouco de Bad Brains, adicionar as dissonâncias do Voivod e para finalizar tudo isso, manteve o espírito hardcore da época em alta. Jogando tudo isso no mesmo balaio, tínhamos, ali, o som do Prong.

Beg To Differ abre com “For Dear Life”. Uma música com um pique crossover ou quase thrash que lembra de leve a linha que o Anthrax seguia em Among the Living e State of Euphoria. Na mesma pegada diretona e sem muita enrolação, “Setady Decline” segue dando o tom objetivo e urgente do disco.

A faixa título é a terceira e ali fica clara a generosa contribuição para o novo metal que seria efetivamente reconhecido uns dois ou três anos depois. “Beg To Differ” era presença garantida no Fúria Metal, programa que rolava nas madrugadas na MTV e era apresentado por Gastão Moreira. Os riffs brecados condizem com a declaração de Tommy Victor sobre o nascimento do som da banda, mas é “Lost and Found” a música que carimba de vez essa mistura de Bad Brains com Voivod. Uma descoberta incrível que, ao revisitar esse grande disco, fez um sentido incontestável.


“Your Fear” é, pra mim, a mais fraca do disco. Não diz muito a que veio e passa meio batida no meio de todas as outras faixas. “Take It In Hand” é um thrashão mais moderno com um riff calcado na velha escola e um leve tempero de Voivod na forma como Tommy Victor constrói a linha de vocal.

Mas a verdade é que, dentro do seu universo, o Prong é uma banda um tanto refinada, e ficar refém somente dessas influências não seria nada condizente com isso. O industrial e o noise de Nova Iorque também emprestaram boa parte dos seus ruídos ao trio. Em “Intermenstrual, D.S.B” isso fica bem claro. Riffs tortos e dinâmica esquisita em uma música instrumental de pouco mais de três minutos. Vale lembrar que o baterista Ted Parsons já tocou com Swans, Godflesh e Killing Joke, entre outros grandes nomes do noise e do industrial, o que explica um pouco o gosto da banda pelos novos caminhos da época.

Estamos já na penúltima música e é de “Prime Cut” a incumbência de preparar a gente para o fim cada vez mais próximo. Dentro de todo o recorte de algo moderno para a época, essa é uma música até que bem simples, curta e grossa. Pra fechar, “Just the Same” faz as honras e traz de volta o que “Intermenstrual, D.S.B” deixou pelo caminho. A veia industrial fala mais alto e para uma banda que, segundo Tommy Victor, sempre quis ser diferente, encerrar o disco com uma música dessas faz todo sentido. Fique tranquilo Tommy, você conseguiu.

Mas, ainda assim, o Prong nunca teve a exposição ou o reconhecimento à altura da importância dos seus cinco primeiros discos. E Beg To Differ foi um álbum determinante. Um verdadeiro clássico. Um registro que já naquela época apontava para algo tão novo que a gente nem sabia ainda do que se tratava. Um dos discos que conseguiram injetar uma boa dose de inventividade dentro de uma cena que precisava exatamente disso.

 

Prong Beg To Differ