O Retorno do Ícone: O Mundo, a História e o Furacão em Copacabana

Um verdadeiro furacão tem data marcada para atingir a Praia de Copacabana no dia 4 de maio. Não se trata de um fenômeno climático catastrófico, mas sim do encerramento apoteótico da The Celebration Tour. Madonna, celebrando seus 40 anos de carreira, escolheu as areias mais famosas do Brasil para um evento gratuito que promete entrar para a história.

Para dimensionar o tamanho desse acontecimento, vale a pena olhar pelo retrovisor. O mundo era um lugar bem diferente na última passagem da diva pelo país. Naquele ano de 2012, enquanto a cantora dividia as atenções com o sucesso estrondoso da novela Avenida Brasil, a cultura pop global via nascer fenômenos digitais que moldariam a década seguinte.

O cenário cultural de 2012: Virais, cinema e a nuvem

Antes de 15 de julho daquele ano, Psy era apenas um rapper conhecido dentro da Coreia do Sul. Foi nessa data que sua produtora carregou no YouTube o clipe de Gangnam Style. Com uma batida contagiante e aquela coreografia que imitava o galope de um cavalo, o vídeo transformou o artista em uma sensação global da noite para o dia, inspirando paródias e acumulando bilhões de visualizações nas semanas seguintes. Doze anos depois, o vídeo ainda se sustenta como o décimo primeiro mais visto da plataforma, superando a marca de 5 bilhões de plays.

Enquanto a música se tornava viral, o cinema francês vivia seu momento de glória em Hollywood. A 84ª edição do Oscar foi dominada por O Artista, filme mudo e em preto e branco dirigido por Michel Hazanavicius. A produção levou os troféus de Melhor Filme, Melhor Ator, Direção e Roteiro, tornando-se a primeira obra francesa não falada em inglês a conquistar as principais estatuetas da noite.

No campo da tecnologia, o conceito de “nuvem” deixava de ser uma abstração para o grande público. Após anos de especulação, o Google Drive finalmente se tornou realidade em 24 de abril, mudando para sempre a forma como armazenamos e sincronizamos arquivos. O esporte também quebrava barreiras nas Olimpíadas de Londres: foi o ano em que o boxe feminino estreou e a Arábia Saudita, conhecida pelo conservadorismo, enviou mulheres para competir. Elas representaram 40% dos mais de 10 mil atletas presentes.

A forja de uma lenda no underground de Nova York

Mas a Madonna que aterrissa no Rio carrega uma bagagem que vai muito além de 2012. Sua identidade foi forjada no início dos anos 80, quando Madonna Louise Ciccone era apenas uma bailarina faminta e baterista de rock iniciante no East Village. Aquele caldeirão cultural de Nova York, misturando a “mutant disco”, o nervosismo da new wave e o submundo da dança, incutiu nela um instinto aguçado para desafiar limites e subverter a moral sexual vigente.

Essa intuição provou ser sua maior arma. Ao assinar com a Sire e cercar-se de produtores com acesso às últimas baterias eletrônicas LinnDrum e sintetizadores Oberheim OB-X, ela casou seu som eletro-disco com uma identidade visual feita sob medida para a era da MTV. Não demorou para que ela explodisse como um ícone das paradas, garantindo a coroa de Rainha do Pop muito antes da virada do milênio.

Encontros e desencontros com o Rei do Pop

Durante sua ascensão, apenas uma figura operava em uma estratosfera semelhante: Michael Jackson. Enquanto Madonna dominava as conversas culturais no final dos anos 80, Jackson era praticamente idolatrado durante a era Bad. A relação entre os dois titãs culminou em uma amizade única, simbolizada quando Madonna o convidou para ser seu par no Oscar de 1991.

Em entrevista a Howard Stern em 2015, a cantora revelou que conseguia se identificar com ele em muitos níveis, mas ressaltou a timidez dolorosa do astro. A conexão não era baseada em revelações profundas, mas em rir da loucura do mundo em que viviam. “Nós não falávamos sobre nossa infância”, refletiu ela. “Acho que ele se sentia eternamente torturado. Era difícil para ele olhar nos olhos das pessoas”.

A diferença fundamental

Havia, contudo, um abismo separando as experiências de vida de ambos. Madonna teve a chance de viver como uma anônima, conhecer o sabor dos sonhos e aspirações comuns, misturar-se à cena social como uma jovem adulta e passar pelos marcos da adolescência antes da fama.

Jackson, por outro lado, teve seu talento explorado cruelmente pelo pai e empresário, Joe Jackson, e nunca teve uma infância real. Sua tendência a fugir para fantasias escapistas, fruto desses anos iniciais malformados, acabou prejudicando sua produção criativa nos anos 90, resultando em trabalhos artisticamente irregulares enquanto Madonna continuava a ditar tendências. A história dos Jackson terminaria manchada por alegações sombrias, contrastando com a contínua reinvenção de Madonna, que agora se prepara para escrever mais um capítulo histórico nas areias do Rio de Janeiro.